A precariedade laboral atinge hoje uma dimensão impensável há apenas uma dezena de anos atrás, de tal forma que em muitos sectores de actividade é a norma. Com a precariedade vem geralmente a perda de direitos a todos os níveis e rapidamente deslizamos para uma perda de qualidade da democracia.
Na profissão docente, em cerca de 150000 professores e educadores, 23000 pertencem a esta categoria - precários, a forma certa de caracterizarmos a condição dos docentes contratados.
Nas Actividades de Enriquecimento Curricular, as tais que concretizam a Escola a Tempo Inteiro, estão nesta mesma categoria mais cerca de 15000. Com a agravante de, a maioria, nem sequer terem a "protecção" de um contrato. Estão no regime do "recibo verde", sem férias, muitas vezes sem ordenado certo, sem data certa de pagamento, sem vida certa, esta é que é a verdade. Mas lá que fazem parte da resposta educativa da escola pública, disso, hoje já ninguém duvida.
A qualidade da formação dos professores na base do êxito dos estudantes filandeses
Por Ritva Semi
Neste últimos anos, a Finlândia surge invariavelmente em primeiro lugar nos estudos dos programas PISA da OCDE. Com frequência há quem pergunte ao OAJ, sindicato finlandês dos professores: Como é que vocês conseguem? Qual é o segredo do vosso sucesso?
A longa tradição de uma formação de alta qualidade dos professores é considerada como factor essencial para o êxito do sistema de educação pública finlandês. Desde os anos 1970 que os professores do primeiro ciclo do ensino básico têm uma formação universitária ao nível do mestrado.
Foram várias reuniões negociais. Começaram a 25 de Novembro e, regularmente, todas as semanas, a FENPROF e o Ministério da Educação iam passando em revista os pontos de alteração ao ECD em relação a três matérias centrais: estrutura da carreira docente, avaliação de desempenho e transição entre modelos.
Dos diferentes textos em análise (propostas e respectivas contra-propostas) apenas um acordo era claro: acabaria a divisão espúria entre professores e professores “titulares”.
Assinar este acordo foi um acto
de grande responsabilidade
Devo deixar bem claro que, na consulta feita ao secretariado nacional, “em cima do acontecimento” nas próprias instalações do M.E., votei a favor da assinatura do “acordo”. Um outro membro do SN – que não sei como votou – perante o meu “ar” preocupado, pressentiu que eu estava mesmo profundamente dividido. É certo que o texto final melhorou um pouco depois desse “meeting”, mas as razões para esta divisão “interna” não foram superadas.
O processo que levou a que ao final da noite do dia 7 de Janeiro a maioria dos sindicatos dos professores assinassem o acordo de princípios para a revisão do ECD e do modelo de avaliação dos docentes, apesar das expectativas que a ministra Isabel Alçada criou, não foi fácil. Não foi fácil por parte do Ministério da Educação que, mandatado pelo governo liderado pelo mesmo primeiro-ministro que patrocinou o maior e mais feroz ataque aos docentes portugueses, pretendia preservar o essencial da política da anterior.
Sem Champanhe nem Cicuta Reflexões em torno do acordo
ME/Sindicatos
Preâmbulo
Ao escrever sobre o assunto em título, permitam-me dirigir as primeiras palavras para o Secretariado Nacional da FENPROF, saudando todos os seus elementos, em particular aqueles que integraram as equipas de negociação.
Fazer juízos de valor a posteriori é bem mais fácil do que preparar
todas as matérias, sob todos os ângulos e, mesmo assim, sofrer a tensão
de ter de decidir na hora com a responsabilidade de representar
milhares de professores. Registe-se, também, a mudança de atitude desta
equipa ministerial.
Actualmente, enquanto crescem dia a dia as desigualdades sociais, ressurge em todo o esplendor a ideologia da igualdade de oportunidades. Assim, quando se propõem políticas de correcção das desigualdades sociais – por exemplo, no plano da progressividade dos impostos directos, da tributação dos patrimónios e mais-valias financeiras e do reforço dos direitos sociais e económicos, medidas que até podemos considerar minimalistas, pois passam ao lado da questão nuclear da concentração do poder e da riqueza – lá surgem alguns a defender que tudo isso está ultrapassado.
Escrevi isto aqui na crónica de Dezembro: À laia de presente de Natal ou de desejo de ano novo, espero que o bullying não entre nunca na vida das nossas Marianas, Matildes e Joanas (Crónica de Dezembro no Escola-Informação).
Mas entrou afinal, e apenas dois meses depois. Na verdade, não esperava voltar tão cedo a este tema, mas não posso fugir a ele desde que na Terça-feira voltou a ser notícia com o desaparecimento de um rapaz de 11 anos, aluno da escola Luciano Cordeiro, em Mirandela. Há coisas que não dizemos por pudor e medo, evitamos a palavra suicídio e pronunciar o nome deste rapaz. Não se chamar este rapaz pelo seu nome (pelo menos na maioria das notícias) pode ter sido uma opção da família para preservar alguma paz e isso compreende-se. Mas de alguma forma é para mim uma metáfora do silêncio, desse silêncio doloroso que é uma das características de todas as vítimas, quer se trate de violência doméstica, de maus tratos ou de bullying. E não nos atrevemos a pronunciar suicídio porque é dramático aplicar o termo a qualquer adulto, quanto mais a uma criança de 11 anos, alguém que teria toda a vida pela sua frente, tanta coisa ainda para viver.
O estudo, citado nas notícias ultimamente, e feito pela Universidade do Minho diz que uma entre duas crianças não se queixa, e de facto já é uma vitória que uma delas o faça. É preciso é saber o que se segue a essa queixa. As responsabilidades nestas matérias são sempre complexas e múltiplas, mas isso não deve evitar o seu apuramento. Neste caso a gravidade é extrema, mas há casos em que essa gravidade não sendo tão clara e evidente marca uma vida para sempre. Marca-a de forma dolorosa e permanente, como um medo instalado que não larga a pessoa por mais que as situações problemáticas tenham ficado para trás. E se todas as soluções devem ser analisadas, é preciso ter cuidado com algumas que culpabilizam mais do que compreendem e punem mais do que resolvem. Se parece sensato chamar à escola uma família de um aluno agressor em que os pais têm trabalho, existe uma relação de afecto e cuidado entre os seus membros, isto é percebemos que há uma organização que suporta a família, e há portanto ali os recursos necessários para que os pais possam ser responsabilizados e chamados a intervir perante aquele episódio de violência do seu filho/a, isso não é sempre assim. De que servirá punir (retirando o subsídio?) uma família que já contém em si as mesmas sementes de violência que demonstra a criança/jovem agressor? Nestes caso, há que pensar duas vezes. A violência de uma criança pode ser punida com mais violência dentro da família e, em consequência, com um adensar da raiva dentro da criança/jovem agressor para com a vítima. É por isso, que como muitos especialistas já têm dito, é necessário ter nas escolas equipas multidisciplinares (com professores também, claro; quem melhor que eles conhece a violência capaz de se gerar numa sala de aula) capazes de analisar cada problema nos contornos que ele apresenta e agir de acordo com as variáveis da situação. E são variáveis que têm a ver com agressores e vítimas e com a sua vida em determinado(s) contexto(s) educativo(s). Infelizmente profissionais como técnicos de serviço social, psicólogos, animadores socioculturais têm tido um lugar muito precário no sistema educativo, contratados nos últimos anos ao abrigo do "Programa Escolhas" ou dos "TEIPS" (Territórios Educativos de Intervenção Prioritária) ou dos GAAF (Gabinete de Apoio ao aluno e à família), como antes o tinham sido no âmbito do PIPSE (Programa de Intervenção para a Promoção do Sucesso Educativo) ou de outro qualquer programa que após vigorar dois ou três anos desaparece sem quase deixar rasto. Os Serviços de Psicologia e Orientação não só nunca se alargaram de forma consistente a todos os agrupamentos de escolas, dando a força necessária a uma carreira de psicólogos dentro do Ministério da Educação, com as mesmas obrigações e direitos que são inerentes a qualquer outra carreira, como raramente incluíram outros profissionais como estava inicialmente previsto. Assim, casos que com um trabalho em equipa entre professores e profissionais competentes deviam ser tratados no contexto da escola, passam para os tribunais, onde se arrastam, sem que a criança possa ser ajudada quando precisa, ou seja, imediatamente.
Interrogam amiúde porque é que isto se passa, porque é que há violência, e mais violência sempre que falamos de organizações onde as pessoas vivem em grupos em relação estreita uns com os outros, como é o caso da escolas. E convém não esquecer que também há violência entre adultos e nos contextos profissionais, e não é só de assédio sexual, há outro tipo de agressões nos locais de trabalho. Na verdade a violência já acontecia, sempre aconteceu. Algumas pessoas, creio que na casa dos trinta, quarenta e mesmo mais deram o seu testemunho hoje (5de Março) no fórum da TSF assumindo-se como vítimas. Penso que só há algumas pequenas diferenças: éramos mais resistentes à pressão que o grupo (de pares da escola) exercia sobre nós, porque tínhamos outras alternativas de socialização (a rua, o bairro, a sociedade recreativa, a família alargada), ou seja a escola não era todo o nosso espaço de socialização. E há ainda outro aspecto: a modelagem de comportamentos que a sociedade de consumo ajudou a instituir criou padrões fortíssimos em termos do que é bom ser (magro, por exemplo) e sobretudo do que se deve ter (vestuário de marca, telemóvel de marca, computador com acesso a redes sociais, deslocação por carro, etc.) e que, por uma falha, deixam alguns adolescentes em limiares perigosos para aceitação. E quase nenhum adolescente tem força para lutar contra essas regras informais, mas de força absoluta; eles simplesmente não querem (ou não podem) fazer a diferença. Fiquem um pouco a observar ao portão de uma escola que tenha 3º Ciclo e Ensino Secundário, e rapidamente saberão o que se deve usar para se ser aceite, e isso chega até níveis absurdos como o modo de levar os livros, o tipo de estojo e de caderno e o local onde se guarda o TM (preferencialmente no bolso da frente das calças de ganga). Podemos dizer que tais comportamentos são característicos da adolescência, e portanto desaparecerão na transição para a idade adulta. Mas há dois aspectos que nos deviam levar a nos mantermos atentos: o que essa fase produz enquanto dura (estas pressões que se podem tornar insustentáveis) e, o que ela deixa de negativo na personalidade do adulto (conformismo, fragilidade…)
Lutar contra esta modelagem pela uniformização é trabalho longo, árduo e muito difícil, mas certamente tarefa de educadores, quer estes sejam pais ou professores.
Cinema O Laço Branco
O filme de Michael Haneke (a preto e branco) que obteve grande aceitação em Cannes, interpretado por Ulrich Tukur, Susanne Lothar, Josef Bierbichler.
Filme de Bernett Miller (2005), com Philip Seymour Hoffman, Catherine Keener – Drama, 98 minutos
Ao ler no jornal uma nota sobre o assassinato de uma família inteira no Estado do Kansas, Truman Capote vê a oportunidade de investigar o caso e escrever um artigo sobre ele.